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Liminha e Adélia se casaram em 1953 (Foto: Acervo Pessoal)

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Liminha desfrutava da lua de mel com a esposa, Adélia, quando um dirigente do Palmeiras lhe telefonou. Queria saber se o atacante poderia abreviar a folga romântica para participar de um amistoso em São José do Rio Pardo (SP), marcado para o dia seguinte. O jogador, então com 23 anos, nem sequer hesitou diante do pedido inoportuno: pegou o carro e, com a mulher no banco do passageiro, dirigiu de Poços de Caldas (MG) até a cidade do interior paulista, onde ajudaria o Verdão a golear o time da casa por 5 a 2.

A lealdade devotada aos companheiros de equipe, o espírito competitivo e o amor pelo Alviverde eram características marcantes da personalidade de um dos maiores heróis da história palmeirense. Oswaldo Luiz Moreira, o Liminha, foi o autor do segundo gol palestrino no empate com a Juventus-ITA por 2 a 2 na grande final do Torneio Internacional de Clubes Campeões de 1951, dia 22 de julho daquele ano, no Maracanã. O resultado, combinado com a vitória por 1 a 0 no jogo de ida da decisão, garantiu ao Palmeiras a conquista do primeiro Mundial organizado sob a chancela da Fifa, sete décadas atrás.

“O meu marido tinha um enorme orgulho desse título, mas nunca gostou do rótulo de herói”, rememora Adélia, de 89 anos, com quem o craque teve dois filhos, Liamar e Oswaldo Júnior. “Para ele, todos os jogadores que participaram do campeonato foram igualmente importantes, porque ninguém vence nada sozinho.”

Paixão à primeira vista

Filho de um feirante negro com uma dona de casa branca de ascendência italiana, Liminha nasceu em 30 de janeiro de 1930. Ganhou esse apelido pela amizade com um dos irmãos do ídolo alviverde Lima, com quem era visto frequentemente nas ruas do Bom Retiro, bairro comercial situado no Centro de São Paulo.

Ele e Adélia se apaixonaram ainda adolescentes, mas demoraram a namorar. Colegas de colégio, trocaram bilhetinhos durante anos, sempre às escondidas do austero pai da jovem, que a proibia de se aproximar dos garotos. Em uma das mensagens ao pretendente, Adélia, à época com 14 anos, sugeriu que eles fugissem juntos.

“Felizmente, o Liminha teve juízo e recusou”, brinca Dona Dedé, como a viúva do craque é chamada por amigos e familiares.

Liminha (o último da fila) começou no Ypiranga (Foto: Acervo Pessoal)

Liminha iniciou a carreira como ponta-direita no Clube Atlético Ypiranga, pelo qual se profissionalizou aos 18 anos. Indicado por Lima, chegou ao Palestra Italia em janeiro de 1951, após se destacar no Campeonato Paulista do ano anterior, conquistado pelo Verdão.

Forte, rápido e versátil, logo passou a ser utilizado em diferentes posições da linha ofensiva. Sua estreia pelo clube foi avassaladora: no dia 25 de fevereiro, marcou quatro vezes no triunfo por 7 a 1 sobre o Flamengo, pelo Torneio Rio-São Paulo, naquela que ainda é a maior goleada palmeirense na história do confronto – o título interestadual foi o primeiro do atacante com a camisa alviverde.

O atacante assinou com o clube em 1951 (Foto: Acervo Pessoal)

Decisão era com ele

Liminha defendia o Palmeiras havia cinco meses quando teve início o Torneio Internacional de Clubes Campeões. Idealizada pelo então vice-presidente e secretário-geral da Fifa, o italiano Ottorino Barassi, a competição foi promovida pela CBD (atual CBF) e reuniu oito dos principais clubes do mundo, divididos em dois grupos. Líder e vice-líder de cada chave avançariam às semifinais, que, a exemplo das duas partidas da decisão, seriam realizadas no Maracanã.

O Verdão disputou os três jogos da primeira fase no Pacaembu. Liminha não atuou na estreia contra o Nice-FRA (vitória palestrina por 3 a 0), mas cumpriu papel de protagonista no embate seguinte: diante do forte Estrela Vermelha-IUG, fez o gol da virada por 2 a 1, aos 35 do segundo tempo, selando a classificação palmeirense.

Liminha (ao centro) com os companheiros Dema e Lima (Foto: Acervo Pessoal)

Voltou a brilhar no jogo de ida da semifinal contra o Vasco ao anotar, novamente nos minutos finais, o tento da vitória por 2 a 1. Como o segundo duelo terminou empatado em 0 a 0, o Alviverde assegurou presença na decisão diante da Juventus-ITA, equipe para a qual havia perdido por 4 a 0 na última rodada da fase de grupos.

Já no primeiro confronto da final, contudo, o Palmeiras deu o troco na favorita Vecchia Signora. O triunfo por 1 a 0, gol de Rodrigues, deu ao representante brasileiro a vantagem de jogar pelo empate na partida de volta, agendada para o dia 22 de julho.

Na final da Copa Rio, o herói entrou no gol com bola e tudo (Foto: Acervo Histórico)

Acompanhada pela família de Liminha, de quem estava noiva, Adélia viajou de carro ao Rio de Janeiro para ver a finalíssima. Já se passaram 70 anos, mas ela ainda se lembra do entusiasmo com que o público carioca torceu pela equipe paulista e do coro de “Brasil” entoado por mais de 100 mil vozes no Maracanã.

A Juventus saiu na frente aos 18 do primeiro tempo, com Praest, mas o Palmeiras chegou à igualdade logo após o intervalo: aos dois, Liminha lançou para Lima, que acertou a trave; Rodrigues, na sobra, completou para a rede. Dezesseis minutos depois, porém, Hansen recolocou o clube italiano em vantagem, despertando entre os torcedores presentes o medo de outra decepção no estádio que, um ano antes, assistira ao Maracanazo, como ficou conhecida a derrota da Seleção Brasileira para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950.

Liminha marcou o gol do título contra a Juventus (Foto: Acervo Histórico)

O pessimismo se dissipou aos 32, quando Liminha driblou dois marcadores e chutou cruzado; o goleiro Viola deu rebote e o próprio Liminha entrou no gol com bola e tudo para garantir a taça.

“Na hora, eu comecei a chorar e só parei quando o juiz apitou o fim do jogo. Foi lindo!”, rememora Dona Dedé. “Naquela noite, houve um jantar comemorativo em um restaurante perto do Corcovado, com a presença de jornalistas e autoridades. Fiquei toda orgulhosa.”

Bondade em pessoa

Protagonista da primeira glória a nível global alcançada por um clube do país, Liminha viveu tempos difíceis no Palmeiras após a conquista do Mundial, a quinta das Cinco Coroas (cinco taças consecutivas). O time perdeu o embalo e entrou em uma seca que só terminaria com o título do Campeonato Paulista de 1959.

Competitivo ao extremo, Liminha não se conformava com as decepções que se acumulavam a cada ano e, não raro, envolvia-se em brigas com adversários. O destempero dentro de campo contrastava com o estilo boa-praça que o jogador exibia fora das quatro linhas.

“Meu pai tinha fama de briguento, mas era a bondade em pessoa. Nunca levantou a mão nem para mim nem para a minha irmã”, diz Oswaldo Luiz Moreira Júnior, de 65 anos, filho caçula de Liminha. “Ele ajudava todo mundo, inclusive alguns companheiros de time que passaram por dificuldade financeira depois que pararam.”

O craque (de azul) no aniversário de um dos netos (Foto: Acervo Pessoal)

A filha do craque, Liamar Moreira, de 67 anos, lembra-se da alegria do pai quando ela levava para casa seus amigos e amigas. “Assim que chegávamos, papai ia à cozinha fazer uma pipoca ou uma pizza para nos servir. Ele adorava ter gente por perto”, relata.

Liminha, aliás, era um cozinheiro de mão cheia. Gostava, sobretudo, de preparar os frutos do mar que ele próprio comprava na Praia do Embaré, em Santos (SP), onde a família Moreira tinha uma casa.

Coração verde

O herói da Copa Rio, como também é chamado o Mundial de 1951, vestiu o manto alviverde em 230 jogos e fez 106 gols – número que o coloca em 15º lugar no ranking dos maiores artilheiros da história do clube, ao lado do ponta Ministro, que atuou pelo Alviverde de 1917 a 1928. Ele se despediu do Verdão ao fim de 1955, junto com o amigo Jair Rosa Pinto, por quem cultivava enorme admiração.

O atacante com o craque Jair, de quem era amigo (Foto: Acervo Pessoal)

“Meu pai falava assim: ‘Quem acha que esse Rivellino chuta forte nunca viu o Jair bater na bola’”, diz Oswaldo, apelidado de Tilinho.

Antes de encerrar a carreira, em 1961, Liminha defendeu Portuguesa, Bragantino, Ferroviária, Nacional e Jabaquara. Em momento algum, contudo, deixou de acompanhar e torcer pelo Palmeiras. Tanto que fez questão de passar adiante o amor pelo clube: seus dois filhos são palestrinos.

Para continuar sustentando a família, trabalhou em uma montadora, onde foi registrado como supervisor. Na prática, porém, sua tarefa era treinar e jogar pela equipe da empresa em torneios amadores.

Por ironia do destino, Liminha morreu de broncopneumonia em 22 de julho de 1985, data do aniversário de 34 anos do título mundial.

Todos os dias, Dona Dedé se lembra com saudade do marido.

“Quando nos casamos, eu era um pouco relaxada, não gostava de me arrumar. Já o Liminha era tão vaidoso que tingia até os cabelos do peito. Às vezes, ele me dizia assim: ‘Dedé, você é tão bonita, por que não fica mais vaidosa?’”, rememora, entre risos. “Hoje, eu não fico um dia sem passar um batom e colocar um colar. O Liminha foi um grande atleta e, principalmente, um marido e um pai maravilhoso.”

Liminha

Nome: Oswaldo Luiz Moreira
Data de nascimento: 30/01/1930
Data de falecimento: 22/07/1985
Posição: atacante
Temporadas no clube: 5
Jogos: 230
Vitórias: 130
Empates: 44
Derrotas: 56
Gols: 106
Estreia: Palmeiras 7 x 1 Flamengo (25/02/1951)
Último jogo: Palmeiras 2 x 0 Ponte Preta (30/10/1955)
Principais títulos: Rio-São Paulo e Mundial em 1951

Fábio, Luiz Villa, Juvenal, Túlio, Salvador, Rodrigues, Ponce de Leon, Lima, Dema, Jair Rosa Pinto e Liminha (Foto: Acervo Histórico)

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